Carlos Moedas abre o coração sobre a infância em Beja e o alcoolismo do pai: "A família também adoece"

Carlos Moedas não se conteve e revelou detalhes profundos sobre a sua trajetória pessoal durante uma conversa com Tânia Ribas no programa «Olhos nos Olhos» da RTP1. O autarca da capital abriu-se completamente ao falar sobre as memórias que moldaram a sua infância em Beja e os efeitos duradouros que a doença do seu pai deixou na dinâmica familiar.
A mãe como refúgio seguro
A figura materna surge como o grande suporte emocional na narrativa do engenheiro civil. A sua mãe, que trabalhava como costureira e modista e faleceu há aproximadamente um ano, é recordada com profunda ternura. "A minha mãe era realmente uma mulher linda […] que me transmitiu sempre a serenidade e a calma. Nos momentos mais difíceis, ela esteve sempre presente, foi o meu maior pilar. E portanto, a recordação que eu tenho mesmo é do calor da minha mãe", partilhou, revelando que ainda hoje recorre aos seus ensinamentos para navegar o dia a dia.
O legado intelectual do pai e a sombra da dependência
O pai de Carlos Moedas deixou um rastro marcante na imprensa regional alentejana. Como um dos jornalistas mais influentes da região e fundador do Diário do Alentejo, foi respeitado pela sua inteligência e pelo seu compromisso em combater a opressão da PIDE. Porém, o autarca decidiu romper o silêncio sobre a luta do progenitor contra o alcoolismo, desafiando o tabu que ainda envolve este tema em Portugal.
Quebrando o estigma
"É importante falar para que as outras pessoas percebam que é uma doença. Porque o alcoolismo é de tal ordem dramático para a família, e eu costumo dizer, é uma doença que não é só o doente, a família também fica doente. Porque é tão duro. E criava naquela altura quase uma vergonha, não é? Um não assumir a doença por parte da família, ou fingir", explicou, com transparência rara em espaços públicos.
Marcas que não desaparecem
A experiência de crescer com um progenitor dependente deixou impressões profundas no comportamento de Moedas, especialmente nos seus padrões de sono. "Alguém que é filho de um alcoólico nunca fica igual para o resto da vida. […] Uma das coisas que um filho de alguém que foi alcoólico [sente] é que fica sempre com um sono muito leve. […] Porque nós estamos sempre alertas. O que é que vai acontecer? Será que ele vai cair? Que vai ter um problema? E esse alerta que cria na família fica para o resto da vida", confessou, visibilmente tocado.
Um chamado à solidariedade
O presidente da câmara encerrou o seu depoimento com um apelo claro: partilhar a sua história é uma responsabilidade para com quantos enfrentam situações similares. "Foi uma doença que o meu pai teve, como poderia ter sido um cancro ou outra doença muito grave, mas é importante que as pessoas tenham essa consciência", concluiu, emocionado em estúdio.
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