segunda-feira, 20 de julho de 2026

Reflexões de Evandro sobre racismo acendem debate intenso no Passadeira Vermelha

25 de junho de 2026
Reflexões de Evandro sobre racismo acendem debate intenso no Passadeira Vermelha
Reflexões de Evandro sobre racismo acendem debate intenso no Passadeira Vermelha

A passagem de Evandro e Paula Lobo Antunes pelo programa "Casa Feliz" continua a reverberar nos círculos mediáticos. Na SIC, os intérpretes conversaram sobre o trabalho nas gravações da novela "Páginas da Vida", oportunidade em que Evandro abriu o jogo sobre questões de preconceito racial. O tema ganhou novo fôlego no programa "Passadeira Vermelha" da SIC CARAS, conduzido por Liliana Campos com comentários de Sofia Jardim, Zulmira Garrido, David Motta e a convidada Cláudia Borges, gerando uma troca de ideias repleta de tensão.

Durante a sua intervenção inicial, Evandro descreveu os desafios emocionais de interpretar sequências carregadas de discriminação. "Isto são assuntos intemporais. Infelizmente, acho que daqui a 20 anos vamos estar a falar novamente deste assunto e de outros que existem. Mas gravar estas cenas, inicialmente eu estava um bocado receoso porque automaticamente eu podia buscar certas memórias daquilo que eu já passei mais novo e mais velho", revelou.

O ator ressaltou ainda o ambiente acolhedor nos bastidores: "O ambiente é tão acolhedor no set, sinto-me tão acolhido e tão protegido que mesmo depois dessas cenas que fazemos, eu sinto-me, ok, está tudo bem, Paula, está tudo bem. E é um prazer enorme fazer isso com a Paula porque a Paula é muito engraçada, a Paula tem uma energia incrível. Mas é ótima atriz".

Em estúdio, Zulmira Garrido confessou que antigamente "não tinha essa consciência" sobre a magnitude do problema, observação que Liliana Campos considerou frequente. "Nós não sentimos, nós enquanto pessoas brancas não sentimos", comentou a apresentadora. Zulmira, por sua vez, sugeriu que a visibilidade mediática do tema "tem um bocadinho mais a ver com determinados partidos políticos", argumentando que Portugal acolhe bem os seus cidadãos, citando a sua própria experiência: "Nomeadamente eu que em casa tenho uma pessoa que é de cor, fui criada com pessoas de cor".

Liliana Campos prontamente corrigiu a terminologia: "Cor somos todos nós. Mas quando as pessoas se queixam, é porque existe". Zulmira concordou e apontou o futebol como exemplo cristalino: "Onde se via muito e aí onde eu tinha noção e comecei a ter noção que ainda havia muito racismo é no futebol. Porque aí vê-se muito mesmo, inclusive os jogadores a ofenderem outros colegas".

David Motta aprofundou a questão da representação na ficção, sublinhando o contraste social patente na trama. "O que é um facto é que a representatividade aqui é a mulher branca com um ar privilegiado, porque a Paula Lobo Antunes não engana ninguém, é a mulher branca privilegiada a exercer, por assim dizer, a ser racista com um rapaz negro", observou.

Sofia Jardim contestou esta perspetiva, levantando a hipótese de o fenómeno ter múltiplas direções. "Sim, mas também temos que ver que o racismo não é só, também dá de vários lados. Eu acho que funciona para os dois lados também", afirmou. David replicou imediatamente: "Uma coisa é preconceito, outra coisa é racismo, mas é um debate que devemos ter aqui. Mas que negro é que escravizou um homem branco nos séculos de história de Portugal? É uma coisa estrutural".

Liliana Campos endossou a posição de David, realçando as dinâmicas históricas de privilégio. "Nós enquanto brancos somos privilegiados, não sabemos o que é sentir na pele aquilo que já vem de gerações, já é de séculos, não é? Que já está entranhado nos comportamentos da maioria das pessoas", expressou. Sofia Jardim manteve a sua visão mais abrangente: "Mas eu estou a falar do mundo em geral, às vezes também há racismo contrário. Estou a dizer que no mundo nem sempre é assim".

O debate encerrou com um relato pessoal de Zulmira Garrido sobre o tempo em que viveu em África na sua juventude. "Eu vivi em Angola, como toda a gente sabe, fui criada lá. Meu pai era militar. Os meus pais não eram ricos, mas lá eu fui criada, tinha babá, tínhamos tudo. Motoristas…", recordou. A comentadora destacou a integridade do seu pai perante ordens militares da época: "Houve uma altura em que eles foram obrigados a fazer rusgas nos musseques e muitos deles eram obrigados quase a torturar as mulheres nos musseques. Sabe o que é que o meu pai fez? 'Põe as malinhas aí na família e viemos embora.' Ele teve-se nas tintas se tinha reforma, se não tinha reforma, veio embora. Não conseguiu desempenhar aquele papel que lhe era pedido a militares, polícias, soldados, tropas que faziam isso".

Quando David Motta a questionou sobre as motivações portuguesas na região, Zulmira concluiu: "Foram à procura de vida melhor, para ganharem dinheiro, obviamente".

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